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Xadrez internacional agrava tragédia síria


José Goulão
10/06/2012

Hillary Clinton exige que o presidente Bashar Assad deixe a Síria, o dirigente do regime de Damasco acusa os grupos armados de oposição de serem responsáveis pelos massacres de civis e o Grupo de Xangai defende o diálogo interno contra a intervenção externa. A secretária de Estado norte-americana fez a declaração contra a Assad na Turquia, o país determinante, juntamente com a Arábia Saudita, do financiamento, treino e armamento do chamado Exército Sírio da Liberdade constituído basicamente por mercenários fundamentalistas islâmicos próximos da al-Qaida e integrando alguns desertores do exército sírio.

A representante norte-americana e dirigentes de países que a comunicação social internacional qualifica como "aliados" realizaram em Istambul uma reunião à porta fechada para definirem, segundo as agências internacionais, o plano para afastamento de BasharAssad. Entre os presentes estiveram 16 representantes "seniores" de países da União Europeia e dirigentes das petromonarquias ditatoriais sunitas do mundo árabe, uma associação semelhante à que prenunciou a guerra lançada pela NATO contra a Líbia e que levou as milícias fundamentalistas islâmicas ao poder em Tripoli. Estados Unidos e União Europeia encorajam cada vez mais abertamente os interesses dos poderes sunitas do Médio Oriente contra as bolsas de poder xiitas, antagonismo que pode degenerar em guerra religiosa.

A reunião decorreu sob os ecos de novos massacres de civis em cidades e aldeias sírias, atribuídos pelos presentes às autoridades de Damasco com base em informações de "activistas" sírios não identificados e que, segundo as agências, forneceram desta feita menos dados fotográficos e videográficos do que supostamente aconteceu. Comprovou-se anteriormente que alguns desses dados sobre massacres fornecidos por "activistas" eram falsos.

Os recentes massacres de civis iniciaram-se nas vésperas das visitas de observadores da ONU à Síria para avaliarem os resultados da primeira fase do chamado Plano Annan, a implantação do cessar-fogo – impedido pelo aumento de actividade dos grupos armados infiltrados do estrangeiro – e darem início à segunda fase, as negociações entre as autoridades e a oposição.

A oposição armada apoiada pela Turquia, Síria e Estados Unidos pretende um diálogo interno que exclua Bashar Assad, posição que foi reafirmada pelos participantes da reunião de Istambul, que impõem a partida do presidente como condição para "negociações". A reunião foi antecedida em poucas horas pelo anúncio feito por "activistas" de novos massacres cometidos na Síria, dos quais o regime declinou imediatamente qualquer responsabilidade e sobre os quais existem dados muito contraditórios em relação aos números de vítimas e circunstâncias das tragédias.

O enviado da ONU para a Síria, tem mantido uma posição um pouco diferente da que foi adoptada pelos participantes na reunião de Istambul defendendo uma ampla negociação e interna e internacional, esta incluindo todas as grandes potências e também o Irão, para uma solução da questão síria. A reunião realizar-se-ia no México em meados deste mês e poderia incluir um frente-a-frente entre os presidentes norte-americano e russo.

O Grupo de Xangai, entidade que integra a China, a Rússia e numerosos países da Ásia Central, declarou simultaneamente com a reunião de Istambul que não haverá qualquer possibilidade de solução no cenário da ONU que exclua as actuais autoridades de Damasco. O veto da China e da Rússia e uma proposta de resolução que abria portas a uma agressão da NATO contra a Síria foi agora transformado num antagonismo entre blocos, incluindo o oriental os países mais populosos do mundo.

"Os membros do grupo de Xangai estão contra qualquer interferência nos assuntos internos dos países do Médio Oriente, contra os afastamentos do poder e contra sanções unilaterais", lê-se na declaração.

A gravidade da situação na Síria coincide com a degradação dos problemas na Ásia Central, a propósito da qual o secretário da Defesa norte-americano, Leon Panetta, disse que "está a perder a paciência" com o Paquistão depois de os Estados Unidos fazerem uma sucessão de ataques contra este país com aviões sem piloto; ao mesmo tempo, o presidente do Afeganistão, colocado por Washington no poder, declarou à chegada de Panetta a Cabul o seu desagrado com o comportamento actual norte-americano na região.

 

Original: The Week