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A odisseia dos imigrantes na Grécia


Campanha contra persoas estrangeiras
10/09/2012

Uma campanha contra os estrangeiros ilegais entrou em seu primeiro mês na Grécia, dentro de uma estratégia que incluiu o fechamento da fronteira com a Turquia, sobre o Rio Evros, e o deslocamento de imigrantes das grandes cidades para improvisados centros de detenção. No dia 2 deste mês, a polícia colocou 1.881 efetivos ao longo do Evros, numa tentativa de selar a fronteira.

O porta-voz dessa força, Christos Manouras, disse à IPS que essa ação "efetivamente impediu novas chegadas". Ele explicou que, "quando, por meio das câmeras infravermelhas ou de nossas patrulhas, ficamos sabendo que alguém tenta cruzar o rio, os oficiais da polícia formam um escudo humano e impedem a entrada".

Por outro lado, só em Atenas a polícia deteve 12.900 imigrantes que residiam irregularmente no país. Cerca de 400 estão em um novo acampamento de detenções em Amugdaleza, arredores de Atenas. Os demais foram enviados para duas academias de polícia convertidas em acampamentos improvisados em Xanthi e Komotini, no norte do país. Membros da organização Médicos Sem Fronteiras (MFS) visitaram os dois acampamentos no mês passado e descreveram as condições como de má qualidade.

"Nossa equipe registrou sérias carências em relação à infraestrutura e às condições de detenção, apesar dos esforços óbvios das autoridades para melhorar a situação", disse à IPS a diretora-geral da MSF, Reveka Papadopoulou. "Controlaremos mais a situação, mas não nos envolveremos de maneira a impedir que o governo enfrente as responsabilidades derivadas de uma opção policial de implantar uma política de detenções em grande escala", acrescentou. As autoridades não permitem que jornalistas visitem os acampamentos de detenção, e o acesso à fronteira está limitado em coordenação com a Guarda Fronteiriça grega.

A Comissão Europeia não descarta financiamento para tais medidas, e "organiza regularmente missões técnicas no terreno para debater com as autoridades gregas se correspondem as ações no contexto dos programas cofinanciados pela União Europeia", detalhou à IPS a Comissão por correio eletrônico, referindo-se à sua missão na fronteira. As autoridades instalaram, há alguns dias, um acampamento improvisado no lugar de umas velhas barracas militares em Korinthos, 75 quilômetros ao sul de Atenas, que podem abrigar outros dois mil detidos.

"As detenções durarão até um ano", enquanto as autoridades tentam enviar essas pessoas de volta aos seus países de origem, explicou Manouras. "Muitos poderão optar por voltar mediante o programa que implantamos junto com a Organização Internacional para as Migrações" (OIM), acrescentou. Cofinanciado por Grécia e Fundo Europeu para o Retorno, o programa já enviou de volta cinco mil pessoas. No final de julho, a OIM e a Grécia assinaram acordo de um ano no valor de dez milhões de euros (US$ 12,5 milhões) que oferecerá retorno voluntário assistido a cerca de sete mil imigrantes ilegais.

Desde 2005, a Grécia é o principal ponto de chegada de imigrantes ilegais. Mais de 80% entram na Europa através da Turquia, pelo Mar Egeu ou pelo Evros. A vasta maioria destas pessoas espera seguir para o norte da Europa. Contudo, a distância que as separa de outros países europeus, além de cláusulas do Regulamento Dublin II, que determina o regresso de solicitantes de asilo ao país europeu onde chegaram primeiro, condena dezenas de imigrantes a permanecerem perdidos em um limbo na Grécia. Isto transformou o país, e Atenas em particular, em um depósito de centenas de milhares de imigrantes sem a documentação necessária e solicitantes de asilo, que sobrevivem com renda ínfima em um vasto mercado negro.

A nova política migratória do governo de coalizão da direitista Nova Democracia, o tecnocrata Pasok e o esquerdista moderado Demar, se implementa em um momento em que muitas organizações internacionais expressam preocupação pelo fracasso das autoridades em proteger os direitos humanos de imigrantes e solicitantes de asilo, e por oferecer-lhes proteção diante de uma crescente onda de ataques racistas. A política também acontece em meio a uma bancarrota econômica, surgida em 2009 quando não conseguiu fazer frente aos pagamentos de sua elevada dívida. Após quatro de recessão, o desemprego chega a 29% da população economicamente ativa da Grécia.

Em meio a esta crise, o sentimento xenófobo se propagou na sociedade. Os ataques racistas aumentaram nas ruas de Atenas e se propagam rapidamente por todo o país. No dia 23 de julho, a violação e tentativa de assassinato de uma adolescente de 15 anos na ilha de Paros por parte de um trabalhador paquistanês sem documentos legais disparou a indignação social. No contexto das ondas de ataques contra estrangeiros iniciada depois desse fato, no dia 12 de agosto um imigrante iraquiano foi morto a punhaladas por cinco jovens encapuzados.

"A gente sabe que isto pode ocorrer cada vez que se sai de casa", disse em fluente grego à IPS o solicitante de asilo Ramadan Sah, que fugiu do movimento extremista Talibã no Afeganistão. "Alguém pode te parar e perguntar de onde é. E, então, podem aparecer muitos mais e te atacar. Está realmente perigoso ali fora", ressaltou. Sah esteve perdido no sistema de solicitações de asilo por mais de uma década. Há dois meses o comitê de apelações avaliou seu pedido. Está por terminar uma licenciatura em ciência política, mas enfrenta renovados temores. "É como quando nos escondíamos para fugir do Talibã, quando nos chamavam de esquerdistas. Agora somos os estrangeiros", afirmou. Envolverde/IPS (FIN/2012)

 

Fonte: IPS

 

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